O Pai Natal veio de Belém

A esquerda está feliz e festiva com o facto de, neste ano da graça de 2004, o pai natal ter chegado de Belém. Só que, com as atenções centradas no frenesim da conquista por um lugar elegível nas listas ou por uma sinecura prometida no governo ou na administração, ainda poucos se terão dado conta que o simpático velhinho traz presentes envenenados.
Receita ucraniana para o saneamento da classe política? Não. Apenas mais uma originalidade do tempo que corre, já pleno de singularidades. É este o espírito da época: ou não foi o dr. Sampaio a dar o exemplo ao despedir, com ineditismo constitucional, um governo sem motivo minimamente risível?
O BE – Transborda de regozijo, senão mesmo de puro e justificado gozo. Prepara-se para a hipótese, muito remota mas sempre presente, dos socialistas terem de mendigar o seu apoio para constituírem governo. No limite, existe o cenário improvável (mas não há já lei das probabilidades que resista seriamente neste desgraçado país…) do dr. Louçã, o dr. Portas (Miguel) ou o dr. Fazenda sobraçarem uma pasta sem conteúdo (se for o caso, já agora, ponham lá dra. Drago;-)). Ainda por cima, com o inaceitável sr. Jerónimo de Sousa à frente do PC, o bloco tem mais possibilidades de reforçar a sua representatividade parlamentar, o que significa que recauchutar a extrema-esquerda sem acrescentar uma única ideia interessante e colá-la a duas ou três causas modernaças mais que compensa.
O PC – Vai explorar, até ao tutano, uma técnica que é normalmente atribuída ao dr. Santana: a vitimização. Em nome do bom povo de esquerda, claro está. O sr. Jerónimo de Sousa já aguça o dente e veste pele do cordeirinho do presépio que o dr. Sampaio decidiu contrapor à árvore de natal do BCP. Sem, por tal desaforo, ter sido tão castigado como o foi o governo no que respeita a impostos a pagar pela banca, pelo menos de acordo com o dr. Portas, que fez o favor de confirmar o que apenas adivinháramos. Assim, se o dr. Sócrates ficar aquém da maioria absoluta, face à disponibilidade moderada dos comunistas, só o PS pagará a factura da ingovernabilidade. Avante sr. Jerónimo que está no bom caminho, é avisado atirar com a irresponsabilidade para cima dos socialistas, pois assim sempre adoça, com confeitaria natalícia, o lento e arrastado estertor do PC.
O PS – Para se safar tem ganhar com maioria absoluta. Por isso o dr. Sócrates já estará a dizer que sim a toda a gente, abrindo-se a todos os compromissos e satisfazendo todos os peditórios. O que é preciso é chegar lá! Decidiu reagir ao anúncio de dissolução jurando que o PS estava pronto para governar e que até era o dr. Vitorino que ia coordenar o programa de governação, conferindo assim ao empreendimento carácter de coisa séria. Em política não se anda muito tempo à bolina. O líder é ele não é o dr. Vitorino e nestas coisas de liderança política ou se assume ou não. A credibilidade e carisma não se delegam nem se emprestam. É como no anúncio: «uns têm, outros não». O dr. Sócrates engana-se se pensa que chega a S. Bento a pregar a dignidade e dignificação das instituições. Vai pagar, com língua de palmo, durante a campanha que aí vem, a tese de que não descerá os impostos ou então, passar pelo vexame de dar o dito por não dito. Vai ainda ter de explicar como controla o défice e, ao mesmo tempo, relança a economia e dizer que reformas se propõe fazer, como, com quê e com quem. O dr. Santana e o dr. Portas não o vão poupar.
O dr. Ferro – Saiu-lhe a fava no bolo-rei e, por isso, merece uma menção. Mesmo pensando o dr. Sampaio o que pensa dr. Santana ficou-se a saber que, mesmo assim, achou-o preferível, humilhação das humilhações, ao dr. Ferro. Quem tem amigos destes dispensa inimigos. Entra, no quadro natalício deste ano, na parte da compaixão.
O dr. Sampaio – Parece ser politicamente incorrecto falar da figura presidencial, pelo menos desde que a intelligentia pátria descobriu e revelou que o sentimento indígena é avesso a que se toque na bondade presidencial. Como não vamos a votos, marimbamo-nos para o conselho. Até porque seria uma clamorosa injustiça omitir o dr. Sampaio, visto que ele próprio não disfarça o secreto desejo de ser visionado como o último baluarte da esquerda. Para sair de Belém pela porta da frente precisa que o PS ganhe com maioria absoluta. Qualquer outro cenário é de catástrofe. Para ele e para nós.
Nós todos – Ficámos com menos garantias face à administração fiscal que passa a aceder às contas bancárias, bastando para tal descortinarem-se indícios de crime ou de falta de veracidade do declarado. Passámos a correr o risco de cúmplicidade na fuga ao IVA, desde que participemos, como clientes ou fornecedores, em qualquer fase de uma transacção que envolva a falha na entrega do imposto e implique um preço relativo inferior ao praticado em fases anteriores do ciclo económico. Trata-se de uma versão moderna, improvisada pelo dr. Félix, do ditado que estipula que «pelo pecador paga o justo». Ficámos ainda, aparentemente, desprovidos de instrumentos de poupança com benefício fiscal e sem saber muito bem quando vão ser actualizados os escalões para se cumprir a parca descida de impostos.
A banca – Pode furar o tecto de 15% de imposto, sempre que provar exercer predominantemente a sua actividade nas Zonas Francas da Madeira e de Santa Maria, o que manifestamente não deve ser difícil. Também os dividendos de acções adquiridas nas privatizações vão continuar a ter benefícios fiscais. É Natal!

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